Risco ambiental persiste enquanto galões de agrotóxicos permanecem no fundo do Rio Tocantins
O leito do Rio Tocantins esconde uma ameaça silenciosa: centenas de galões de agrotóxicos submersos desde o desabamento da ponte Juscelino Kubitschek, em dezembro do ano passado. Apenas uma fração mínima, 29 bombonas das mais de mil que caíram no rio, foi recuperada até agora, gerando apreensão quanto aos potenciais impactos ambientais e à saúde humana.
Os veículos acidentados transportavam substâncias como 2,4-D, picloram e acetamiprido, todos classificados como perigosos. A operação de resgate, iniciada logo após o acidente, foi paralisada em janeiro devido ao aumento do nível do rio e à abertura das comportas da Usina Hidrelétrica Estreito, a 3 km do local. O Ibama justificou a interrupção alegando risco à segurança das equipes de mergulho.
A retomada dos trabalhos, que deveria ter sido prioritária, arrastou-se por seis meses. Somente no início de julho, o Dnit confirmou o reinício das inspeções, utilizando sonares e equipamentos não tripulados para localizar as cargas. A próxima fase, os mergulhos técnicos, será crucial para o mapeamento completo e a elaboração de um plano de remoção detalhado para cada galão, considerando os desafios da profundidade e dos escombros.
Apesar da presença dos agrotóxicos, os boletins hidrometeorológicos atuais indicam condições favoráveis para a execução dos mergulhos, com baixa pluviosidade e correnteza reduzida. Análises realizadas até 10 de abril não detectaram contaminação da água do Rio Tocantins acima dos limites permitidos. No entanto, especialistas alertam que o risco ambiental persiste. A permanência prolongada desses materiais aumenta a probabilidade de vazamentos, o que poderia comprometer o ecossistema aquático e as populações que dependem do rio para abastecimento e pesca.
A Usina Hidrelétrica Estreito, que regula o nível do rio, opera no modelo “a fio d’água”, e sua vazão segue as regras estabelecidas pela Resolução ANA nº 070/2021. Qualquer alteração dependeria de solicitação e autorização dos órgãos reguladores.
O Rio Tocantins, que nasce em Goiás e atravessa Tocantins, Maranhão e Pará, é vital para diversas comunidades, servindo como fonte de água, irrigação, sustento para pescadores e área de lazer. Contudo, líderes locais expressam frustração com a falta de diálogo do poder público. Ricardo Murakami, representante da Terra Indígena Apinayé, lamenta a ausência de comunicação entre os órgãos responsáveis e as comunidades indígenas.
A despeito das declarações iniciais da ANA de que a alta vazão do rio diluiria rapidamente os pesticidas, especialistas como Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Unifesp, ressaltam que não há garantias sem a divulgação de resultados de monitoramento à população. A preocupação com o consumo contínuo de pequenas quantidades de agrotóxicos, mesmo dentro de limites considerados “seguros”, é uma questão de saúde pública que exige transparência e ação imediata. A situação se agrava com a revelação de que parte dos galões foi arrastada pela correnteza por mais de 300 km, chegando a municípios do Pará, evidenciando a capacidade de disseminação desses contaminantes e a urgência de uma resposta eficaz.