Investigação sobre desvios bilionários atinge cúpula política e avança sobre emendas parlamentares; bloqueio de bens determinado pelo STF chega a R$ 24 milhões.
A nova ofensiva da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), foca no rastro de recursos desviados de emendas parlamentares e convênios federais. O esquema, que teria como epicentro contratos do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e pastas ligadas ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, revelou uma rede de influência que utilizava empresas de fachada e laranjas para ocultar o destino final do dinheiro público. Além das buscas, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 24 milhões em contas bancárias de investigados.
O estado do Tocantins ocupa uma posição central na engrenagem criminosa. Entre os principais nomes citados está o de Claudinei Aparecido Quaresemin, ex-secretário extraordinário de Parcerias e Investimentos e sobrinho do ex-governador Mauro Carlesse. Segundo os investigadores, Quaresemin atuava como um dos articuladores do esquema no estado, sendo suspeito de receber mais de R$ 805 mil em repasses ilícitos. A apuração indica que ele teria facilitado contratos para a empresa Larclean em licitações nas secretarias de Educação (Seduc) e Administração (Secad).
O histórico da Operação Overclean é marcado por episódios de resistência e tentativas de obstrução. Em outubro de 2024, mandados foram cumpridos em Palmas e Gurupi, resultando na prisão em flagrante do ex-secretário-executivo da Educação, Éder Martins Fernandes, e do servidor Danilo Pinto da Silva. Ambos foram acusados de monitorar indevidamente a movimentação policial para antecipar as ações da PF. Embora as prisões preventivas tenham sido posteriormente convertidas em medidas cautelares pelo STF, as provas colhidas reforçaram a tese de uma organização criminosa estruturada.
Um dos pontos que mais chamou a atenção das autoridades foi o modus operandi do grupo para lidar com o dinheiro em espécie. Durante as fases anteriores, agentes flagraram situações inusitadas, como investigados arremessando maços de dinheiro pela janela ou escondendo cédulas dentro de botas e gavetas de escritórios. Para a Polícia Federal, o uso massivo de “dinheiro vivo” era uma estratégia deliberada para dificultar o rastreamento bancário e assegurar a lavagem dos valores oriundos de propinas.
Atualmente, o inquérito segue sob a jurisdição do Supremo Tribunal Federal devido à participação de parlamentares com foro privilegiado. A investigação, que já atingiu prefeitos, ex-gestores e servidores de alto escalão em diversos estados, entra agora em uma fase crítica de análise dos documentos apreendidos no gabinete e na residência funcional de Félix Mendonça. O objetivo é identificar se outros congressistas e agentes políticos de peso foram beneficiados pelo esquema que sangrou os cofres da União ao longo dos últimos anos.