Entre a ascensão de Mateus Simões e o impasse político no Tocantins
O mapa político brasileiro desenhou, neste março de 2026, um contraste fascinante que conecta o cerrado tocantinense às montanhas de Minas Gerais. No centro dessa narrativa está um filho de Gurupi: Mateus Simões de Almeida (PSD). Ao assumir o Governo de Minas após a renúncia de Romeu Zema (Novo), Mateus não apenas consolida uma trajetória de rigor técnico, mas expõe uma realidade política drasticamente oposta à vivida em seu estado de origem.
Em Belo Horizonte, a transição no Palácio da Liberdade ocorreu sob o signo da previsibilidade. Zema deixou o cargo para viabilizar projetos nacionais, entregando as chaves do estado a um vice de extrema confiança, garantindo que a engrenagem administrativa não sofresse solavancos. Já no Tocantins, o clima é de “vigília”. O governador Wanderlei Barbosa enfrenta o clássico dilema dos detentores de mandato: a resistência em entregar o poder ao seu vice, Laurez Moreira. Diferente do desprendimento visto em Minas, Wanderlei sinaliza que poderá abdicar da disputa ao Senado para manter o controle da máquina estatal até o último dia de 2026.
Essa reticência tocantinense é alimentada por cicatrizes recentes. Nos bastidores, sobrevive a tese de que Laurez teria articulado politicamente para se consolidar no poder durante o período em que Wanderlei esteve afastado por decisão judicial. O receio de que Moreira imprima um ritmo próprio e desmonte a atual estrutura política — como esboçado nos 93 dias em que ocupou o cargo — cria um hiato de diálogo que contrasta severamente com a harmonia mineira.
Foto: Divulgçaão
A trajetória de Mateus Simões, contudo, é moldada pela resiliência. Nascido em Gurupi em 1981, ele é filho dos produtores rurais Gutemberg de Almeida e Elisa Simões de Almeida, pioneiros do agronegócio na região sul do estado. A história da família foi marcada por uma tragédia que comoveu o Tocantins em 1996: aos 14 anos, Mateus perdeu os pais em um acidente automobilístico na BR-153, enquanto viajavam para Uberaba (MG). O episódio forçou sua mudança precoce para Belo Horizonte, onde foi criado pela avó materna.
A política, no entanto, é uma herança genética. Neto de Arthur Virgílio Filho e primo de Arthur Virgílio Neto, Mateus carrega o DNA do liberalismo e da diplomacia. Mesmo consolidado no Sudeste, ele jamais cortou o cordão umbilical com as origens. Diferente de figuras que apenas citam o local de nascimento, Mateus é um produtor rural ativo no Tocantins, mantendo investimentos em grãos no município de Peixe.
“O Tocantins é minha terra natal”, costuma afirmar, reforçando que seu estilo de gestão — focado em austeridade e resultados — foi forjado no cotidiano das fazendas do cerrado. A posse de um gurupiense no comando de Minas Gerais abre uma janela de oportunidade diplomática sem precedentes. Enquanto o cenário local segue travado pelas disputas de sucessão, a figura de Mateus Simões surge como um elo estratégico, capaz de articular parcerias em inovação e extensão rural entre dois estados que, embora distantes geograficamente, agora compartilham o mesmo DNA de liderança.